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Mostrando postagens de março, 2022

Melô da canceriana ou mínima provisória

 Não adianta pensar muito e fazer pouco ou nada.  Essa é a máxima dos meus conflitos burgueses. Burgueses do tipo sempre prestes a não conseguir pagar o aluguel seguinte. Ainda assim profundamente burgueses. E eis a raiz da questão: penso comigo e faço com os outros. Pelos outros. Pra alguém. Por você. Pro espectador. Pra quem lê. Pra quem ouve. Praquele grande amigo. E tudo pro meu maior amor. E mais ainda pela minha filha. Páreo duro com a minha mãe. E tem meu pai. Por ele eu morro. E minha irmã, e meu irmão, e meu vizinho que é pai da amiga da minha filha, casado com a amiga da minha amiga que é madrinha da minha sobrinha que por algum motivo pra mim precisa ser agradada por mim.  Não sou do tipo que defende a fome, votou no Bolsonaro ou que simplesmente não pensa em nada disso. Mas isso é que mínimo. Sou o mínimo. Mínima.

Não fede nem cheira

  O problema das fotos é mais a ausência de cheiro do que de movimento.   Eu até previ um pouco como deveria ser a sua voz. E cheguei próximo. Seus gestos, o jeito como fecha a boca entre uma palavra e outra, a maneira como se senta… nada fora do esperado. Mas você tem um cheiro de quem é excessivamente limpo. Você nunca andou descalço. Tenho certeza disso. E apesar de todo o conhecimento sócio-político ultra coerente, você pede um café gelado e eu sei que de noite seria vinho branco e de manhã cedo suco verde e tudo isso me dá vontade de voltar a fumar dois maços por dia imediatamente. O lugar que marcamos também não ajuda. Não tem cerveja de garrafa. Me rendo a long neck de milhões. Você deve usar aquele aparelho invisível da moda porque não há nenhuma imperfeição dentária aparente, por menor que seja, um espaçamento micro entre o canino e o dente ao lado, qualquer coisa que seja só sua… Nada. Você é uma costura de retalhos de tudo o que é tendência atual. Sou capaz de adivi...

Nada

Convivo com a sensação ininterrupta de estar jogando a vida no lixo.  E não é de hoje. Apenas na infância vivia liberta dessa cobrança de aproveitamento exemplar do tempo. Que desconheço até hoje.  Afinal viver é jogar tempo fora.  É irreversível. Hoje eu fiz um bolo de côco enquanto deveria estar lendo um edital. E brinquei com minha filha enquanto deveria estudar casos clínicos pra revalidação. Assisti meio episódio de série enquanto poderia terminar meu livro. Visitei amigos em redes sociais, essa sim uma forma abominável de desperdício de tempo.  Enquanto escrevo penso que poderia estar fazendo algum curso ou concurso público.  Só de boteco era um mestrado, um doutorado e toda uma carreira estabilizada.  Tempo se tornou dinheiro estruturalmente. E ainda que eu tente me convencer de que nossas experiências são muito mais coletivas do que imaginamos, tenho certeza absoluta de que ninguém gasta tanto tempo com nada quanto eu. Sou especialista em fazer nada...

Minha mãe postou depois que escrevi

 O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. (José Saramago--)

Volta

  Não consigo te escrever. Acho que meu corpo correu tanto que a alma não foi capaz de acompanhar. Ficou pra trás e agora preciso buscá-la antes. Tenho feito o caminho de volta com mais atenção do que tive na vinda. Como pude não reparar em nada? Encontrei dois dedos da mão esquerda, três dentes, uma costela e muito cabelo pelo chão. É inadmissível ter passado batido por tantos olhares e entrelinhas. A volta é sempre mais dolorosa do que a ida, já nos ensinam as viagens na infância. Mas não havia outro modo de me encontrar. Tenho recolhido até pedaços de unhas que dizem mais a meu respeito do que qualquer fotografia. Agora, palavra, não encontrei quase nenhuma… Muitas meias, elásticos de cabelo, tampas de tupperware, algumas mágoas... Uma ciumeira boba, mas abundante, me impressionou. Sonhos altos, que já nem lembrava da existência. Planos de todos os tipos, principalmente de fuga. Rabiscos incompreensíveis, números soltos de telefone, de protocolo, um batalhão de senhas com os tai...

peça de verão

  ATO 1  Nem manhã nem noite, mas na interseção dos que acordam tarde com os que dormem cedo. Numa linha de aproximadamente 260 metros onde bondes amanhecem a vigília e bares embalam o sono. A água escorre pelas paredes e pelas ruas e pelos corpos, mas não pela garganta que, seca, procura outra fonte úmida pra se hidratar. O ritmo marcado pelos dedos tamborilando e pelas pernas frenéticas porque despertadores já não são capazes de ordenar o tempo.

20241260, costela, rio de janeiro, rj

não tem espaço pra mais nada aqui onde eu moro dentro da minha própria costela mesmo assim amanhã eu vou buscar um sofá pra enfiar aqui mesmo sabendo que ele não cabe no elevador e provavelmente vai entalar na escada mesmo sabendo que as pernas vão quebrar e que um sofá em cima da cama não é a opção mais confortável aqui ninguém pode dormir  essa é a graça enfiar mais e mais  e de olho aberto pra sentir o diafragma comprimindo, os móveis arranhando as paredes do estômago e continuar morando aqui soterrada aproveitando as trepadas no chuveiro pra desperdiçar toda a água do planeta enfiar mais e mais daqui ninguém sai vivo pelo menos temos um sofá para assistir ao fim do mundo

coisas antigas

outro dia parei pra ler coisas antigas. nossos diálogos, solilóquios, provocações, experiências de precipício, verborragias… tive dificuldade de me reconhecer. ou, sendo mais precisa, reconhecer em mim aquele prazer que eu sentia de me observar sangrando.  existe um ritual na cultura judaica de abater animais para preparar para virarem alimento. o objetivo é extrair o máximo de sangue possível com o menor sofrimento. com o animal ainda vivo, cortam as artérias carótidas e as veias jugulares, sem atingir as vértebras cervicais. em dois segundos ele fica inconsciente, pendurado na corda, pingando, as gotas marcando o ritmo das orações. quando termina, inspecionam as entranhas para ver se está tudo dentro do esperado e ainda mergulham na água e esfregam sal na carne por horas, para ter certeza que não ficou nenhum sangue. Kasher, eles chamam, pronto pra consumo. a minha analista uma vez perguntou quando eu deixei de ser autora, pra ser assessora. não sei definir o ponto exato, tenho p...

duas amigas e uma moto

  Era a premissa Duas amigas e a liberdade simbolizada por uma moto Duas amigas de um conjunto habitacional da zona oeste e a liberdade simbolizada por uma mobilete   Duas manas da universidade e a liberdade simbolizada por um apartamento dividido na glória com uma coleção de cactos na varanda Duas rivais cariocas, ex conhecidas da escola primária e de uma pracinha na Pires de Almeida e a liberdade simbolizada por amores fluidos.  Duas palhaças da Cinelândia e a liberdade de rir de si mesma.  Duas inscritas em curso literário e a liberdade de sequestrar a professora/autora premiada pra conseguir uma peça inédita Duas atrizes e a liberdade de ser a Drica Moraes e a Mariana Lima  Duas dramaturgas e a liberdade das palavras  Duas cervejas e a liberdade de uma pontinha que o Fabinho deixou aqui. Duas cervejas e uma ponta é a premissa 
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