Volta
Não consigo te escrever. Acho que meu corpo correu tanto que a alma não foi capaz de acompanhar. Ficou pra trás e agora preciso buscá-la antes. Tenho feito o caminho de volta com mais atenção do que tive na vinda. Como pude não reparar em nada? Encontrei dois dedos da mão esquerda, três dentes, uma costela e muito cabelo pelo chão. É inadmissível ter passado batido por tantos olhares e entrelinhas. A volta é sempre mais dolorosa do que a ida, já nos ensinam as viagens na infância. Mas não havia outro modo de me encontrar. Tenho recolhido até pedaços de unhas que dizem mais a meu respeito do que qualquer fotografia. Agora, palavra, não encontrei quase nenhuma… Muitas meias, elásticos de cabelo, tampas de tupperware, algumas mágoas... Uma ciumeira boba, mas abundante, me impressionou. Sonhos altos, que já nem lembrava da existência. Planos de todos os tipos, principalmente de fuga. Rabiscos incompreensíveis, números soltos de telefone, de protocolo, um batalhão de senhas com os tais caracteres especiais… meia dúzia de crenças e já não guardo mais nenhuma. Em contraposição tive que livrar os bolsos das gentilezas que pesavam horrores. Você não imagina. Como pude correr tanto com aquelas toneladas de falsos sorrisos? Talvez eu volte logo. Ou quem sabe termino no início. Prometo notícias, ainda que mal escritas.
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