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Deus me livro

Eu sei que você é livro  E por isso montanha, fossa, úmida, fria, profunda, ventania, confusão, queda d’agua e oceano.  Leio-te em seus leitos e me deleito quando deito todo dia.  Economizo páginas pra que nunca acabem os capítulos. Brigo com a fome, pra não devorar a vida toda em uma noite. Tipo Sherazade, tipo minha avó quando me instigava a ler em doses homeopáticas, tipo a netflix quando lança um episódio por semana, tipo meu irmão fazia com o ovo de Páscoa de abril a dezembro…  Mas todos os lagos tem seu rosto, por isso evito molhar a cabeça. Sempre morri de medo de sereia. Quando ouço a primeira nota aguda corro pra margem, e me distraio com qualquer pedra ou pássaro ou azul, as vezes verde. Me embriago até que o raso se torne divertido. Reviro a espuma das águas em contato com a rocha, que é montanha, mas não é você.  Você é livro que eu sei. Por isso vulcão, densa, inalcançável, grande o suficiente pra delimitar fronteiras, de lava e queda d’água.  ...

eu já fui uma montanha

eu já fui uma montanha e uma fossa já fui fria, úmida, densa e vulcão inalcançável com meus metros para cima e para baixo superficial como qualquer superfície relevante como qualquer relevo grande o suficiente para delimitar fronteiras pequena demais para não ser posta a baixo meu corpo, esse complexo de acidentes geográficos, amanhece apertando o golfo dos meus dedos contra o estreito da minha garganta e adormece quando secam meus olhos  de lava e queda d’água eu sou uma ilha e o oceano todos os lagos tem meu rosto todas as depressões tem meu nome
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Graal

  Hoje eu desci na parada do graal. Não por vontade, mas pela minha falta de capacidade de não permitir a vontade alheia. Eu era aquela pessoa da cadeira do corredor que prende a pessoa da cadeira da janela. A pessoa da cadeira da janela tem a janela, a vista, o controle da cortina, a parede do ônibus para apoiar a cabeça, o espaço entre a cadeira e a parede para enfiar cacarecos, como livros, barras de chocolate, celulares. A pessoa do corredor tem apenas o controle da saída da pessoa da janela que evidentemente é uma privilegiada. Exercitar esse controle é lutar contra a desigualdade social das dinâmicas de força do ônibus. Deixar que a pessoa da janela passe fome, fique apertada para fazer xixi, claustrofóbica é lutar por justiça.  Porém nessa madrugada, quando o ônibus parou e a pessoa da cadeira da janela começou a sutilmente se mexer, eu percebi naqueles gestos que ela não se humilharia para pedir para passar. Ela ficaria lá, me observando dormir e pensando tudo que ela ...

Melô da canceriana ou mínima provisória

 Não adianta pensar muito e fazer pouco ou nada.  Essa é a máxima dos meus conflitos burgueses. Burgueses do tipo sempre prestes a não conseguir pagar o aluguel seguinte. Ainda assim profundamente burgueses. E eis a raiz da questão: penso comigo e faço com os outros. Pelos outros. Pra alguém. Por você. Pro espectador. Pra quem lê. Pra quem ouve. Praquele grande amigo. E tudo pro meu maior amor. E mais ainda pela minha filha. Páreo duro com a minha mãe. E tem meu pai. Por ele eu morro. E minha irmã, e meu irmão, e meu vizinho que é pai da amiga da minha filha, casado com a amiga da minha amiga que é madrinha da minha sobrinha que por algum motivo pra mim precisa ser agradada por mim.  Não sou do tipo que defende a fome, votou no Bolsonaro ou que simplesmente não pensa em nada disso. Mas isso é que mínimo. Sou o mínimo. Mínima.

Não fede nem cheira

  O problema das fotos é mais a ausência de cheiro do que de movimento.   Eu até previ um pouco como deveria ser a sua voz. E cheguei próximo. Seus gestos, o jeito como fecha a boca entre uma palavra e outra, a maneira como se senta… nada fora do esperado. Mas você tem um cheiro de quem é excessivamente limpo. Você nunca andou descalço. Tenho certeza disso. E apesar de todo o conhecimento sócio-político ultra coerente, você pede um café gelado e eu sei que de noite seria vinho branco e de manhã cedo suco verde e tudo isso me dá vontade de voltar a fumar dois maços por dia imediatamente. O lugar que marcamos também não ajuda. Não tem cerveja de garrafa. Me rendo a long neck de milhões. Você deve usar aquele aparelho invisível da moda porque não há nenhuma imperfeição dentária aparente, por menor que seja, um espaçamento micro entre o canino e o dente ao lado, qualquer coisa que seja só sua… Nada. Você é uma costura de retalhos de tudo o que é tendência atual. Sou capaz de adivi...

Nada

Convivo com a sensação ininterrupta de estar jogando a vida no lixo.  E não é de hoje. Apenas na infância vivia liberta dessa cobrança de aproveitamento exemplar do tempo. Que desconheço até hoje.  Afinal viver é jogar tempo fora.  É irreversível. Hoje eu fiz um bolo de côco enquanto deveria estar lendo um edital. E brinquei com minha filha enquanto deveria estudar casos clínicos pra revalidação. Assisti meio episódio de série enquanto poderia terminar meu livro. Visitei amigos em redes sociais, essa sim uma forma abominável de desperdício de tempo.  Enquanto escrevo penso que poderia estar fazendo algum curso ou concurso público.  Só de boteco era um mestrado, um doutorado e toda uma carreira estabilizada.  Tempo se tornou dinheiro estruturalmente. E ainda que eu tente me convencer de que nossas experiências são muito mais coletivas do que imaginamos, tenho certeza absoluta de que ninguém gasta tanto tempo com nada quanto eu. Sou especialista em fazer nada...