coisas antigas

outro dia parei pra ler coisas antigas. nossos diálogos, solilóquios, provocações, experiências de precipício, verborragias… tive dificuldade de me reconhecer. ou, sendo mais precisa, reconhecer em mim aquele prazer que eu sentia de me observar sangrando. 


existe um ritual na cultura judaica de abater animais para preparar para virarem alimento. o objetivo é extrair o máximo de sangue possível com o menor sofrimento. com o animal ainda vivo, cortam as artérias carótidas e as veias jugulares, sem atingir as vértebras cervicais. em dois segundos ele fica inconsciente, pendurado na corda, pingando, as gotas marcando o ritmo das orações. quando termina, inspecionam as entranhas para ver se está tudo dentro do esperado e ainda mergulham na água e esfregam sal na carne por horas, para ter certeza que não ficou nenhum sangue. Kasher, eles chamam, pronto pra consumo.


a minha analista uma vez perguntou quando eu deixei de ser autora, pra ser assessora. não sei definir o ponto exato, tenho palpites. mas o que percebo é que sangrar dói. sinto que de uns tempos pra cá tenho escolhido fazer isso inconsciente, já tendo esquecido o que é liberdade, degolada, pingando, em busca da redenção, pra finalmente um dia ser devorada seca. 


esses dias tô por aqui, espalhando bagunças pelo chão da minha vida controlada, abrindo pensamentos na minha geladeira vazia, colocando em fila as canções que doem, desperdiçando verbo, em plena quarta-feira de carnaval, eu toda cinzas, pisando em cactos para não me jogar da varanda.

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