Não fede nem cheira

 O problema das fotos é mais a ausência de cheiro do que de movimento. 

Eu até previ um pouco como deveria ser a sua voz. E cheguei próximo. Seus gestos, o jeito como fecha a boca entre uma palavra e outra, a maneira como se senta… nada fora do esperado. Mas você tem um cheiro de quem é excessivamente limpo. Você nunca andou descalço. Tenho certeza disso. E apesar de todo o conhecimento sócio-político ultra coerente, você pede um café gelado e eu sei que de noite seria vinho branco e de manhã cedo suco verde e tudo isso me dá vontade de voltar a fumar dois maços por dia imediatamente. O lugar que marcamos também não ajuda. Não tem cerveja de garrafa. Me rendo a long neck de milhões. Você deve usar aquele aparelho invisível da moda porque não há nenhuma imperfeição dentária aparente, por menor que seja, um espaçamento micro entre o canino e o dente ao lado, qualquer coisa que seja só sua… Nada. Você é uma costura de retalhos de tudo o que é tendência atual. Sou capaz de adivinhar o livro que está lendo, a série que está assistindo, a personalidade dos seus melhores amigos, sua vida equilibrada, seus planos de viagem e construção de família. “Eu vou ao banheiro”. Precisei respirar. Até os azulejos desse bistrô combinam com você. Que pesadelo! Aliás essa palavra: “bistrô” ainda que eu desconheça o significado, te define absolutamente. Ainda consegui cogitar passar um batom. Quase me bati por isso. Volto pra mesa. Você me mostra a foto do seu cachorro, uma raça que seria o golden na época que eu acompanhava a moda canina da zona sul. Náuseas. “Vou na banca comprar um varejo”. A essa altura já tenho vontades estranhas do tipo: jogar no bicho, mijar entre os carros, comer aquele biscoito de pele que vende em estradas aleatórias, pegar chuva de chinelo… tento pensar em bueiro aberto, banheiro de botequim, suor de carnaval ou de torcida no Maracanã lotado pra me acalmar. Volto com meu cigarro e você obviamente fuma um pen drive. Grito por dentro. Um ônibus DO NADA cruza a pequena rua jardim botânica apenas para me salvar. Pego o meu celular como se houvesse atendido na banca: “Minha irmã tá parindo!”

“Que ?” Você responde tragando seu dispositivo cibernético.

“Tenho que ir… VAI NASCER!”

Faço sinal pro ônibus

“Eu te levo. Tô de carro.”

Enquanto entro no ônibus grito:

“Não dá … ela tá fora do Rio… Passa na central?” Pergunto ao motorista justamente por ter lido: ‘central’ no letreiro.

Ele faz que sim 

“Eu vou baldeandoooo…”

E já fui.

Baldear.

Em outros corpos.

Qualquer um que seja mais orgânico e por isso  necessariamente imperfeito.

Maldito aplicativo de relacionamentos. 

As tecnologias precisam urgentemente abarcar os cheiros. 

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