Nada
Convivo com a sensação ininterrupta de estar jogando a vida no lixo.
E não é de hoje.
Apenas na infância vivia liberta dessa cobrança de aproveitamento exemplar do tempo. Que desconheço até hoje.
Afinal viver é jogar tempo fora.
É irreversível.
Hoje eu fiz um bolo de côco enquanto deveria estar lendo um edital. E brinquei com minha filha enquanto deveria estudar casos clínicos pra revalidação. Assisti meio episódio de série enquanto poderia terminar meu livro. Visitei amigos em redes sociais, essa sim uma forma abominável de desperdício de tempo.
Enquanto escrevo penso que poderia estar fazendo algum curso ou concurso público.
Só de boteco era um mestrado, um doutorado e toda uma carreira estabilizada.
Tempo se tornou dinheiro estruturalmente. E ainda que eu tente me convencer de que nossas experiências são muito mais coletivas do que imaginamos, tenho certeza absoluta de que ninguém gasta tanto tempo com nada quanto eu. Sou especialista em fazer nada. E se não fosse a culpa , poderia ser até feliz por isso. Por essa existência insustentável e absolutamente descartável. Quase de plástico. Em lenta decomposição.
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