Deus me livro

Eu sei que você é livro 

E por isso montanha, fossa, úmida, fria, profunda, ventania, confusão, queda d’agua e oceano. 

Leio-te em seus leitos e me deleito quando deito todo dia. 

Economizo páginas pra que nunca acabem os capítulos. Brigo com a fome, pra não devorar a vida toda em uma noite. Tipo Sherazade, tipo minha avó quando me instigava a ler em doses homeopáticas, tipo a netflix quando lança um episódio por semana, tipo meu irmão fazia com o ovo de Páscoa de abril a dezembro… 

Mas todos os lagos tem seu rosto, por isso evito molhar a cabeça. Sempre morri de medo de sereia. Quando ouço a primeira nota aguda corro pra margem, e me distraio com qualquer pedra ou pássaro ou azul, as vezes verde. Me embriago até que o raso se torne divertido. Reviro a espuma das águas em contato com a rocha, que é montanha, mas não é você. 

Você é livro que eu sei. Por isso vulcão, densa, inalcançável, grande o suficiente pra delimitar fronteiras, de lava e queda d’água. 

Finjo que te escrevo as vezes. Assino com o pé na areia pra me orgulhar dos seus delírios literários. Mas logo o mar apaga e adormeço na ilha com os olhos salgados de palavras suas.

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