Graal

 Hoje eu desci na parada do graal. Não por vontade, mas pela minha falta de capacidade de não permitir a vontade alheia. Eu era aquela pessoa da cadeira do corredor que prende a pessoa da cadeira da janela. A pessoa da cadeira da janela tem a janela, a vista, o controle da cortina, a parede do ônibus para apoiar a cabeça, o espaço entre a cadeira e a parede para enfiar cacarecos, como livros, barras de chocolate, celulares. A pessoa do corredor tem apenas o controle da saída da pessoa da janela que evidentemente é uma privilegiada. Exercitar esse controle é lutar contra a desigualdade social das dinâmicas de força do ônibus. Deixar que a pessoa da janela passe fome, fique apertada para fazer xixi, claustrofóbica é lutar por justiça. 

Porém nessa madrugada, quando o ônibus parou e a pessoa da cadeira da janela começou a sutilmente se mexer, eu percebi naqueles gestos que ela não se humilharia para pedir para passar. Ela ficaria lá, me observando dormir e pensando tudo que ela poderia ter feito se tivesse sentado na cadeira do corredor. Então eu abri o olho, enfiei meu sapato e desci tal qual um alienado político que serve de massa de manobra para manter as estruturas como estão. 

Comidas horríveis a preço de petróleo, sucos velhos engarrafados e famílias desesperadas sacando o FGTS para alimentar as crianças naquele lugar. Sentei atrás dela - com uma distância considerável para ela não achar que eu era uma psicopata - com meu pão de queijo seco e meu café com leite doce e fiquei observando ela tomar todo o todynho na velocidade mais rápida que ele podia alcançar dividindo o conteúdo pelo tamanho minúsculo do canudo. Aguardei até o fim, pacientemente, tal qual um anjo. 


Concluído o todynho, ele se levantou e foi até a fila. Eu atrás, zelando. Voltamos pro ônibus? Não voltamos pro ônibus. A pessoa da cadeira da janela agora queria fumar um cigarro, às 5h da manhã no estacionamento do graal. Se eu entro e sento antes dela, tudo terá sido em vão. Me aproximo e peço um cigarro. Ficamos os dois, lado a lado como se iguais, até o último momento, quando o motorista entra de volta no ônibus. Entramos também. A pessoa da cadeira da janela na minha frente e eu copiando seus passos, tal qual um súdito. Se senta e posso vê-la colocar a carteira no espaço entre a cadeira e a parede, apoiar gentilmente a cabeça na janela, suspirar e dormir. Todos dormem. Menos eu. Porque a essa altura a pessoa da cadeira da janela de trás começa a roncar. 


Passei o resto da viagem atenta, apenas eu e os fantasmas que rondavam o ônibus. Podia ouvi-los sussurrar: 


Pessoas da cadeira do corredor de todo o mundo, uni-vos! 

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